Há quem imagine que grandes conquistas acontecem em um único dia.
No esporte, é comum que esse dia seja o da medalha, da linha de chegada ou do lugar mais alto do pódio.
Mas quem vive esse caminho sabe que não é assim. A conquista acontece muito antes. Ela começa nos dias em que ninguém está olhando, nos treinos repetidos, nas escolhas silenciosas, nas vezes em que continuar parece mais difícil do que desistir.
A história de Rodrigo Damião é uma dessas.
Professor da academia do TEC, ele concluiu recentemente uma das provas mais desafiadoras do esporte mundial: o Ironman. Foram 3,8 quilômetros de natação, 180 quilômetros de ciclismo e uma maratona de 42 quilômetros, completados em 12 horas, 16 minutos e 47 segundos.
Mas essa história não começou na linha de largada.
Nem nas 22 semanas de preparação para a prova.
Ela começou quase dez anos antes.
Em 2017, Rodrigo decidiu estrear no triathlon. Curiosamente, a primeira tentativa acabou se transformando em um duathlon por questões de segurança. Na segunda, as condições climáticas impediram novamente a largada. A estreia oficial aconteceu apenas meses depois, em Manaus, durante a final do Campeonato Brasileiro de Triathlon.
Na época, o Ironman já despontava como um objetivo, mas ainda distante.
“Quando você entra no mundo do multisports, é impossível não imaginar participar de algo desse tamanho, por tudo o que essa prova representa, pelas distâncias e pela marca Ironman. Desde a primeira prova eu já sabia que um dia isso ia acontecer. A única dúvida era quando.”
A resposta para essa pergunta levou quase uma década.
Antes da prova completa vieram nove meios Ironman, além de competições de triathlon, duathlon e aquathlon. Mais do que resultados, cada prova acrescentou experiência. E, aos poucos, um sonho distante passou a parecer possível.
Na preparação para o Ironman, foram aproximadamente 198 sessões de treinamento distribuídas entre natação, ciclismo e corrida, em um planejamento conduzido pelo técnico Miguel Sanches.
Os números ajudam a dimensionar o desafio, mas não contam a história inteira.
Os treinos mais longos ocupavam boa parte dos finais de semana. Em alguns dias, Rodrigo passava até seis horas longe de casa. Enquanto ele treinava, a rotina da família também precisava se adaptar.
Há imagens que acompanham essa conquista e que não aparecem nas fotografias da chegada: a da esposa reorganizando a rotina da casa, os avós ajudando com os filhos, o apoio silencioso de quem também abriu mão de parte do próprio tempo para que aquele sonho continuasse vivo.
Por isso, Rodrigo faz questão de dividir essa conquista. Porque algumas medalhas carregam apenas um nome gravado, mas pertencem a muito mais gente.
Ao contrário do que muitos imaginam, o maior desafio também não estava exatamente na distância da prova. Estava na repetição, nos treinos solitários, nos dias em que o corpo parecia não responder, e, principalmente, nas conversas que aconteciam consigo mesmo.
“Quase todos os dias pensei em desistir.”
A frase surpreende porque vem de alguém que chegou até o fim.
Mas ela é completada por outra, talvez a mais importante de toda a sua trajetória.
“Um dia ruim é muito diferente de uma preparação ruim.”
Foi esse entendimento que o fez voltar no dia seguinte.
E no outro.
E no outro.
Porque grandes objetivos dificilmente são construídos em dias extraordinários.
Eles nascem da soma de muitos dias comuns.
Quando finalmente chegou o Ironman, Rodrigo viveu uma mistura de felicidade, ansiedade e respeito pelo desafio que tinha pela frente.
“Eu estava muito feliz por estar naquele lugar prestes a fazer algo incrível, mas também com muito medo por saber que seria um dia longo e que muitas coisas poderiam acontecer. O estado de êxtase é indescritível, algo que nunca vivenciei em outras competições.”
Durante a prova, precisou controlar a ansiedade pelo atraso na largada, nadou em meio a filhotes de águas-vivas e enfrentou uma dor no joelho durante a maratona. Ainda assim, considera que tudo aconteceu muito próximo do que havia planejado.
“Falando da prova em si, fui agraciado e protegido pelo meu anjo e não tive grandes problemas durante o dia.”
Mas o momento mais difícil não foi nenhum desses. Foi cruzar a linha de chegada sem encontrar a família esperando por ele. Depois de meses vivendo aquele sonho junto com Rodrigo, eles acompanharam a prova à distância, pela internet.
Ainda assim, houve momentos que ficaram gravados para sempre em sua memória.
O primeiro foi quando começaram as largadas.
“Eu sabia que meu sonho estava começando.”
O segundo veio durante a corrida.
A energia das pessoas incentivando os atletas foi, segundo ele, algo que nunca havia vivido.
O terceiro aconteceu já no fim.
“Depois de cruzar a linha de chegada, ouvir o narrador anunciar ‘Rodrigo Damião, você é um Ironman’ foi o carimbo de que tudo tinha dado certo.”
A reação veio quase instantaneamente. Depois de 12 horas, 16 minutos e 47 segundos de prova, a sensação era curiosa.
“Consegui! Já acabou? Por incrível que pareça, passou rápido.”
Hoje, Rodrigo faz parte de um grupo extremamente seleto de pessoas que concluíram um Ironman.
Mas, ao voltar para a rotina da academia do TEC, o maior aprendizado que leva dessa experiência não está relacionado ao esporte de alto rendimento. Está naquilo que procura transmitir aos alunos todos os dias.
“Faça. Mesmo que seja pouco, mesmo que seja leve. Se precisar, diminua a carga, as repetições, mas não deixe de fazer.”
É uma orientação simples, mas faz ainda mais sentido quando dita por alguém que levou quase dez anos para realizar um sonho.
Ao olhar para trás, Rodrigo entende que a medalha representa apenas o fim de um percurso construído muito antes da linha de chegada.
“Meu sonho do Ironman começou em 2017 e foi realizado em 2026. Foram quase dez anos de resiliência, paciência e obstinação. Por isso sempre aconselho: trabalhe para isso, não desista e busque ter ao seu lado pessoas que já conquistaram ou que acreditam que você possa conquistar. Uma hora o sonho acontece. Como diria Ayrton Senna: ‘De alguma maneira, você chega lá!’”







